
A primeira vez que fotografei um parto não estava preparada para sentir tudo o que senti. Desde que iniciei minha jornada na fotografia, sempre me questionei sobre qual seria meu verdadeiro nicho, já que não conseguia me encontrar. Além disso, como profissional de Educação Física, sempre tive um interesse profundo por gestação. Por exemplo, meu TCC abordou o impacto dos exercícios físicos para gestantes, pois é amplamente sabido o quanto isso é benéfico para a saúde. Da mesma forma, minha pós-graduação seguiu essa linha, mesmo que eu não tenha dedicado minha carreira integralmente a essa área. No entanto, sempre foi algo que adorei estudar, e, por isso, percebo que a fotografia de parto poderia ser algo que realmente me interessaria.
Quando comecei a fotografar, fui para a área de eventos, uma das mais comuns para quem está iniciando, pela facilidade de acesso. Eu e o Paulo começamos juntos e aprendemos muito, fotografando muitos adultos e crianças.
Frustração ao Registrar o Nascimento da Minha Filha Yasmin
Quando nossa filha Yasmin nasceu, queríamos fotografar o nascimento. Mesmo sendo fotógrafos, a maternidade onde ela nasceu proibiu nossa entrada, permitindo apenas a empresa conveniada realizar os registros. Fizemos a contratação e ficamos frustrados com o resultado. Não houve sequer uma edição das fotos.
Naquela época, muitas maternidades, como a que Yasmin nasceu, proibiam fotógrafos independentes e apenas grandes empresas tinham contratos. Isso despertou nosso interesse pela fotografia de parto, e começamos a estudar o tema, buscando entender melhor o nicho.
A Oportunidade de Fotografar Meu Primeiro Parto em uma Casa de Parto Natural
Tudo mudou quando uma gestante nos procurou para fazer o ensaio. Eu já tinha o grande desejo de fotografar um parto, e ela também queria o registro. Combinamos como seria e, então, fiz meu credenciamento na Casa de Parto. Muitas maternidades e casas de parto exigem cadastramento, algumas cobram taxa ou oferecem cursos específicos. Fiz todo o processo e aguardei ansiosamente a chegada do bebê.
Quando estamos esperando um nascimento, paciência é essencial. O bebê define o momento de chegada e só nos resta aguardar.
Vale lembrar o contexto da época: o país enfrentava a greve dos caminhoneiros, os estoques de alimentos estavam diminuindo, e sair de casa de carro era um risco, já que os postos de combustível estavam desabastecidos.
O Grande Dia: O Primeiro Parto Registrado
Na quarta-feira de manhã, o combustível começou a voltar aos postos, e a gestante me ligou dizendo que as dores estavam intensas e a doula já estava em sua casa. Senti uma mistura de alegria e medo. “Será que eu conseguiria chegar? E se não desse tempo? E se o nervosismo me atrapalhasse?”. Mas era minha chance.
Esperei até o momento certo, quando a gestante me avisou que estava indo para a Casa de Parto. Cheguei rápido, pois o trânsito estava tranquilo devido à greve. Às 14h, encontrei a família. Ela foi avaliada e, com 3 cm de dilatação, foi orientada a caminhar no jardim e se conectar com o bebê, enquanto a doula guiava exercícios. Após duas horas, a nova avaliação mostrou 5 cm de dilatação e o trabalho de parto começava a se intensificar.
A Intensidade e a Beleza do Trabalho de Parto
Comecei a fotografar no jardim. O trabalho de parto foi evoluindo, a mãe alternava entre o chuveiro e o quarto, onde a luz estava suave. Momentos de descanso, gritos, choros e exercícios. Era um empoderamento visceral. A transformação que uma mulher vive durante o parto é algo avassalador, uma força indescritível.
O apoio da família é fundamental. Vi uma mãe incentivando sua filha com todo o amor. Cada contração era uma batalha a menos até a chegada do bebê tão esperado. O tempo foi passando e o momento do expulsivo estava próximo.
Registrar o nascimento é marcante. A mãe está tão imersa em seu próprio mundo, lidando com a dor e a expectativa, que nem se dá conta do que ocorre ao redor. Cabe a mim, como fotógrafa, captar cada detalhe – cada lágrima, palavra de incentivo, abraço, contração e a chegada do grande amor.
O Milagre da Vida: Fotografando o Nascimento
Finalmente, o milagre da vida aconteceu. O bebê começou a coroar e, com isso, a emoção rapidamente tomou conta da sala. À medida que a cabecinha aparecia, o tão esperado “círculo de fogo” trouxe sensações completamente novas para a mãe. Logo em seguida, a sala de parto se encheu de alegria, e, pouco depois, o primeiro choro do bebê ecoou, acompanhado pelo suspiro de alívio da mãe. Sem dúvida, a emoção que presenciei naquele momento foi algo que jamais esquecerei.
O bebê nasceu cerca de 8 horas após nossa chegada à Casa de Parto. Saí de lá de madrugada, mas com um sentimento de felicidade como nunca havia experimentado antes. Foi nesse momento que me apaixonei perdidamente pela fotografia de parto.
Lições Aprendidas com a Fotografia de Parto
A grande lição dessa experiência é que entender o processo do parto é fundamental para quem deseja seguir nesse nicho. Cada parto é único. Mesmo sendo um processo fisiológico, cada história tem sua própria dinâmica e é importante conhecer a fisiologia do parto para captar os momentos mais importantes e prever o desenrolar de cada fase.
Conclusão e Recomendações
Cada parto que fotografei marcou não apenas a minha carreira, mas também o meu coração. A experiência vai muito além da técnica e do resultado final em imagem — ela envolve sensações, expectativas, um mergulho profundo na vida de outras pessoas e uma conexão que transforma.
Na primeira vez que estive diante de um nascimento, percebi que ninguém nos prepara completamente para o impacto emocional que isso provoca. A câmera até captura momentos, mas é o respeito, a sensibilidade e a entrega emocional que tornam a fotografia de parto tão singular.
Seguir em frente depois dessa experiência é um convite contínuo ao aprendizado, à escuta atenta e ao acolhimento de cada mulher que decide confiar em você para registrar um dos dias mais importantes da vida.
📚 Leituras que Aprofundam o Olhar Sobre o Nascimento
A fotografia de parto não acontece no vazio. Ela está diretamente ligada à forma como entendemos o nascimento, o protagonismo da mulher e o impacto desse momento na vida de toda a família. As leituras abaixo ajudam a ampliar esse olhar — seja para fotógrafas, gestantes ou profissionais que acompanham partos.

📘 Nascer – Leila Beltrão
Neste livro sensível e profundo, Leila Beltrão aborda o nascimento como um evento transformador, colocando a mulher no centro do seu parto. A obra mostra como um parto vivido com respeito, autonomia e acolhimento pode gerar impactos positivos não apenas para o bebê, mas para toda a família que está nascendo junto.
É uma leitura que dialoga diretamente com a fotografia de parto, pois ajuda a compreender o significado emocional e simbólico de cada imagem registrada.
👉 Ver o livro “Nascer”

📗 Guia do Parto
Um livro completo e altamente informativo que, além disso, reúne orientações práticas, relatos reais e estratégias fundamentais para a preparação para o parto. Mais do que isso, vai muito além da gestante, sendo indicado também para acompanhantes, doulas, enfermeiras, parteiras e médicos(as) — ou seja, todos aqueles que, de alguma forma, participam da cena do nascimento.
Nesse sentido, para quem fotografa partos, essa leitura se torna ainda mais relevante, pois amplia a compreensão de todo o processo, dos diferentes papéis envolvidos e, principalmente, das decisões que influenciam cada momento vivido na sala de parto.
👉 Conferir o “Guia do Parto”

📙 Parto Ativo
A proposta do Parto Ativo é clara: preparar o corpo para o parto é tão importante quanto preparar a mente. Baseado em exercícios inspirados no Yoga para a gravidez, o livro incentiva a mulher a confiaA proposta do Parto Ativo é clara: preparar o corpo para o parto é tão importante quanto preparar a mente. Nesse contexto, baseado em exercícios inspirados no Yoga para a gravidez, o livro incentiva a mulher a confiar em seus instintos naturais durante o trabalho de parto. Além disso, promove movimentos, posturas e atitudes corporais que favorecem uma experiência mais consciente, ativa e respeitosa.
Por isso, trata-se de uma leitura valiosa para compreender a dinâmica física do parto — algo que, consequentemente, faz toda a diferença no olhar de quem registra esse momento.r em seus instintos naturais durante o trabalho de parto, promovendo movimentos, posturas e atitudes corporais que favorecem uma experiência mais consciente e respeitosa.
Uma leitura valiosa para compreender a dinâmica física do parto — algo que faz toda a diferença no olhar de quem registra esse momento.
👉 Ver o livro “Parto Ativo”

📕 O Renascimento do Parto
Esta obra é um marco na discussão sobre a humanização do nascimento. O Renascimento do Parto apresenta reflexões profundas sobre o modelo obstétrico atual, o resgate do protagonismo feminino Esta obra é, sem dúvida, um marco na discussão sobre a humanização do nascimento. Ao longo de suas reflexões, O Renascimento do Parto apresenta análises profundas sobre o modelo obstétrico atual, bem como o resgate do protagonismo feminino e a importância de escolhas informadas durante a gestação e o parto.
Dessa forma, trata-se de uma leitura essencial para quem deseja compreender o contexto social, emocional e cultural que envolve o nascimento — e, consequentemente, a potência da fotografia de parto como um registro histórico, sensível e profundamente humano.e a importância de escolhas informadas durante a gestação e o parto.
É uma leitura essencial para quem deseja compreender o contexto social, emocional e cultural que envolve o nascimento — e, consequentemente, a potência da fotografia de parto como registro histórico e humano.
👉 Explorar “O Renascimento do Parto”
