

A amamentação é, sem dúvidas, um dos atos mais poderosos e naturais entre mãe e bebê. Ela representa nutrição, acolhimento, vínculo e sobrevivência. No entanto, apesar de sua importância inegável, ainda é cercada por uma forte romantização, que muitas vezes ignora as dores, as dificuldades e os desafios reais que tantas mulheres enfrentam nesse processo.
Neste artigo, compartilho um olhar honesto, empático e baseado em evidências sobre a amamentação — com informações científicas, relatos reais e também a minha própria experiência como mãe da Yasmin, hoje com 11 anos. Afinal, amamentar é lindo — mas está longe de ser fácil. E tudo bem que seja assim.
A romantização da amamentação
Frases como “é só colocar no peito” ou “leite materno é o melhor alimento do mundo” são repetidas constantemente. Elas não estão erradas, contudo, se tornam perigosas quando desconsideram, ainda que sem intenção, as dificuldades enfrentadas pelas mães no início (e durante) esse processo.
Em consequência, a visão idealizada da amamentação gera pressão, culpa e sofrimento emocional, principalmente quando os desafios aparecem. E eles são mais comuns do que se imagina:
- Dor nos mamilos e fissuras;
- Pega incorreta do bebê;
- Produção insuficiente de leite;
- Mastite e obstruções nos ductos mamários;
- Retorno ao trabalho antes dos seis meses;
- Exaustão física e emocional;
- Falta de apoio profissional e familiar.
✨ Mesmo sendo informada, tive momentos de choro, culpa e até vontade de desistir. A dor física era real. O cansaço, imenso. Apesar disso, eu precisava de acolhimento, não de julgamentos.
A importância da amamentação – o que dizem as evidências
A amamentação exclusiva até os seis meses é recomendada por diversas instituições internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Ministério da Saúde do Brasil e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
Dessa forma, os principais benefícios comprovados pela ciência incluem:
Para o bebê:
- Além disso, há redução do risco de infecções respiratórias e diarreia grave.
- Também há menor probabilidade de desenvolver alergias, diabetes tipo 2 e obesidade ao longo da vida.
- Adicionalmente, estudos indicam aumento do quociente de inteligência (QI) em longo prazo.
- Por fim, há proteção imunológica imediata por meio de anticorpos presentes no leite materno (IgA, IgG e IgM).
Para a mãe:
- Menor risco de câncer de mama e ovário.
- Menor incidência de diabetes tipo 2 e hipertensão.
- Aceleração da recuperação uterina no pós-parto.
- Contribuição para o espaçamento entre gestações (método natural de amenorreia lactacional, com 98% de eficácia nos primeiros 6 meses).
📚 Referência: Victora CG et al. (2016). “Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect.” The Lancet.
O que ninguém te conta sobre amamentar
Apesar disso, por trás das fotos lindas de mães amamentando com tranquilidade, há uma realidade muitas vezes silenciosa e solitária.
- A dor real nos primeiros dias, que pode vir de pega incorreta, candidíase mamária, fissuras ou até mastite.
- O leite que demora a descer, causando angústia nos primeiros dias pós-parto.
- O bebê que mama o tempo todo, não apenas por fome, mas por conforto, segurança, calor.
- As noites mal dormidas, os seios empedrados, a sensação de cansaço extremo.
- O impacto emocional de não conseguir amamentar como se imaginava — ou de não querer.
Consequentemente, muitas mães se sentem culpadas por não “amar” o momento da amamentação — e está tudo bem. A conexão pode vir com o tempo, ou pode se dar de outras formas. O amor está no cuidado diário, não em fórmulas ideais.
Minha história com a amamentação: vínculo, desafio e superação
Quando me tornei mãe da Yasmin, em 2013, já sabia da importância da amamentação. No entanto, nada me preparou para a intensidade da jornada que viria. Nos primeiros dias, enfrentei dificuldades com a pega, dor nos mamilos, cansaço físico e emocional. E muitas vezes pensei em desistir. Ainda na maternidade, com os seios sensíveis, recebi a visita da consultora de amamentação, que dizia para não passar pomada pois a bebê poderia “escorregar” e isso dificultaria a amamentação.
O primeiro mês foi o mais desafiador. A rotina de sono era surreal, pois o sono dela era picado, a gente fica meio “morto” sem sabe muito o que fazer enquanto o bebê está dormindo. Além disso, acordar muitas vezes à noite também não é nada fácil e é muito desafiador, pois você está acostumada a dormir a noite toda ou a acordar a hora que deseja.
Tive feridas em um dos seios e o que me ajudou foi o bico de silicone. Usei por algum tempo, uma semana mais ou menos, que foi o tempo do meu seio cicatrizar totalmente. Depois disso, deixei o bico de silicone de lado e começou a fluir com mais facilidade a amamentação.
Lembro de dar algumas “pescadas” sentada no sofá enquanto ela mamava por 40 minutos, pois eu estava exausta. Não foi um período fácil não. Todavia, aos poucos, com ajuda, paciência e muito amor, consegui construir um caminho sólido com a amamentação. Yasmin foi amamentada com exclusividade até os 6 meses e seguiu mamando até os 2 anos e 10 meses. O desmame foi extremamente gentil, conduzido com respeito e no tempo dela — e no meu também.
🌸 Amamentar a Yasmin foi um dos maiores desafios e uma das maiores conquistas da minha maternidade. Não por ter sido perfeito, mas por ter sido real. Persisti com amor, dúvidas, apoio e escuta. E isso fez toda a diferença.
O poder do apoio: escuta, acolhimento e rede de suporte
Uma mãe que está amamentando (ou tentando) não precisa de opiniões não solicitadas ou julgamentos. Em vez disso, ela precisa de apoio real e prático, como:
- Escuta ativa e empática (“você está se esforçando muito”);
- Ajuda concreta: preparar uma refeição, segurar o bebê enquanto ela toma um banho ou tira um cochilo;
- Apoio profissional de uma consultora de amamentação (preferencialmente certificada IBCLC);
- Contato com grupos de apoio presencial ou virtual, onde possa trocar experiências com outras mães.
Além disso, estudos mostram que o apoio contínuo — familiar, profissional e comunitário — aumenta significativamente as taxas de sucesso na amamentação
📚 Referência: McFadden A et al. (2017). “Support for healthy breastfeeding mothers with healthy term babies.” Cochrane Database of Systematic Reviews.
E quando a amamentação não acontece como o planejado?
Nem toda mulher consegue, deseja ou tem condições de amamentar. E isso não a torna menos mãe.
Afinal, vários fatores — emocionais, fisiológicos, históricos, sociais — podem interferir nesse processo. Quando isso acontece, a escolha de oferecer fórmula é uma alternativa segura, regulamentada e válida.
Mais importante ainda, o bebê deve ser alimentado com segurança, e a mãe deve estar emocional e fisicamente amparada. A culpa não deve fazer parte dessa equação.
💛 O vínculo não está apenas no peito, mas no olhar, no colo, na presença. O amor está em cada escolha consciente, em cada gesto de cuidado, seja qual for o caminho escolhido.
Conclusão: menos romantização, mais realidade e acolhimento
Amamentar é um direito — porém, também precisa ser uma escolha consciente, vivida com liberdade, empatia e suporte. Precisamos urgentemente de uma abordagem menos idealizada e mais realista sobre esse processo.
Dessa maneira, que toda mãe possa encontrar espaço para viver sua maternidade com leveza e verdade, sem se sentir pressionada a cumprir expectativas irreais.
Se você está nesse caminho, saiba: você não está sozinha. E tudo o que você está fazendo — com esforço, amor e entrega — é mais do que suficiente.
Recursos úteis
- 📘 Manual da Amamentação – Ministério da Saúde (Brasil)
- 🌐 Rede IBFAN Brasil – Grupos de apoio à amamentação
- 👩⚕️ Consultoras de amamentação certificadas (IBCLC) – procure profissionais próximos ou atendimentos online.
Referências bibliográficas
- Victora CG, Bahl R, Barros AJ, et al. (2016). Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet, 387(10017), 475–490. DOI: 10.1016/S0140-6736(15)01024-7
- World Health Organization (WHO). (2023). Infant and young child feeding. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/infant-and-young-child-feeding
- McFadden A, Gavine A, Renfrew MJ, et al. (2017). Support for healthy breastfeeding mothers with healthy term babies. Cochrane Database of Systematic Reviews, Issue 2. DOI: 10.1002/14651858.CD001141.pub5
- Ministério da Saúde (Brasil). (2015). Amamentação e alimentação complementar saudável. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_amamentacao.pdf